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Paloma

    Na volta para a casa Paloma enfrentou um trânsito mais lento que o normal e filas imensas. A razão? A luz. Ou melhor, a falta de energia elétrica. Sem luz na avenida, sem luz no farol. Uma confusão! Paloma chegou em sua casa, sem coragem alguma para tomar banho na água fria (se haviam momentos preciosos em seu dia o banho quente e relaxante era um deles); na verdade, quase não teve coragem para abrir a porta. Sabe, o escuro sempre foi um certo problema, sempre causou um certo medo, a sensação de que algo que ela  não soubesse bem o que era poderia surpreendê-la, surgir para lhe espantar.     Quase correndo (na verdade, controlando-se para não correr), Paloma deixou a bolsa com estampa de flores no sofá e fechou a casa (é bem verdade que colocar a chave na fechadura utilizando a luz do celular não é a situação mais tranquila do mundo). A rua, com crianças brincando na calçada usando lanternas, lhe pareceu bastante convidativa assim que colocou seus pés na...

Lembre-se, querida

    Pense bem, querida: às vezes a gente precisa ficar quietinha para observar, olhar o que nos faz tão bem. No entanto, outras vezes a gente precisa se mover, fazer algo por aquilo que nos faz muito bem. E, bem, não se assuste, mas há momentos em que conseguimos fazer os dois. Tudo depende, minha querida. As coisas mudam, passamos por momentos diferentes mas nem tudo se vai. Ora, só quero dizer que as coisas não são tão certinhas, entende? Há sempre tantas coisas envolvidas e nem tudo está sob o nosso controle. Poucas coisas estão. Lembre-se disto, querida.  Isabela C. Santos 

Mentirinha social

    Renata acordou, espreguiçou-se e finalmente levantou. Um pouco de dor de cabeça, um pouco da cólica que dava o ar de sua graça todos os meses, uma imensa vontade de ficar em casa, dormir sem hora para acordar. Renata vestiu a roupa que sobrara no guarda-roupa, tomou o café da manhã correndo visualizando a lista de coisas que tinha para fazer (a metade da folha sulfite que ela havia separado para suas tarefas estava totalmente preenchida) e ficou um tanto desanimada. Escovou os dentes, lavou o rosto, passou o protetor solar, penteou os cabelos, calçou os sapatos que ganhara de natal no ano anterior, colocou ração e água nos potes de seu gato, Itálico. Finalmente saiu. Com mais cólica e dor de cabeça e a vontade de estar deitada aumentando, avistou a vizinha que havia lhe pego no colo quando era bebê. O que se seguiria ela sabia bem, a pergunta habitual que receberia a resposta  habitual (para dar essa resposta não precisava pensar, era só responder o que sempre se res...

Antes de dormir

    Juliana deitou-se na cama com sua avó: ela havia lhe feito o convite sob o pretexto de que o outro quarto estava muito apertado. Recusar convites que pareciam mais próximos de pedidos nunca foi sua especialidade. O som do relógio, cobertas que permitiram que seu corpo se aquecesse mais e, quase lhe deram calor, o som de sua respiração, da chuva lá fora... Tudo isso a envolveu de tal modo que naquele momento pensar na vida, como de costume, nem lhe passou pela cabeça. Há tempos Juliana não se sentia tão relaxada. Em minutos seus olhos pesaram, fechá-los lhe dava a sensação de que era assim que eles deveriam ficar, talvez pelo ardidinho no momento em que os fechava e pela sensação de aconchego quando deitou de lado e fechou os olhos outra vez. Era sono. Era hora de dormir. Isabela C. Santos 

Brincadeira de criança

    É fim de semana e a tarde já está se despedindo em um dos parques mais movimentados da cidade. Na ciclovia, três adultos e uma criança andam perto um do outro. Os adultos são Alberto, Patrícia e Isadora. Bruno é a criança, está na mesma bicicleta que Alberto, o marido de Patrícia, irmã de Bruno.      Conversando sobre o medo de andar de bicicleta, Isadora e Patrícia seguem à frente. Bruno pede para Alberto passar pelas moças, Alberto resolve brincar com Bruno e aumenta a velocidade, colocando-se no lugar antes ocupado por Patrícia.  - Isso, Alberto! Vamos! Eu passei pela Patrícia! Ah, Patrícia, ficou pra trás!      Mais algumas pedaladas e Alberto passa com Bruno por Isadora. Bruno fica ainda mais feliz!  - Ahá! Eu passei pela Patrícia e pela tia Isadora! Vamos, elas não podem passar na frente!     As moças riem, resolvem brincar, fingem tristeza pela suposta derrota. A partir de então, Isadora, Patrí...

A vida é assim mesmo, a gente se confunde

Mariana tinha consulta às 8hrs no dentista em um local que demoraria duas horas para chegar (considerando o trânsito, a boa vontade dos passarinhos, a direção do vento e os passos das formigas). Como de costume, Mariana havia anotado a data na agenda, criado um lembrete no celular, avisado a avó, a mãe, o pai (que faria aniversário no mesmo dia), o gato, o cachorro e a plantinha do quintal. Acontece que ter que acordar às 5hrs era um evento e conseguir seria um milagre. Pensando no que poderia fazer quando chegasse em casa, Mariana partiu às 6hrs para o consultório do dentista. Viu o ponto lotado, encantou-se com a neblina, esperou na fila errada no terminal de ônibus,  foi para o final da fila certa (ficava no limite com outra dimensão) esperou, esperou... Entrou no ônibus e ouvindo música começou a sorrir, feliz por tudo estar dando tão certo em sua vida, por mais que algumas coisas estivessem dando errado.  Mariana chegou 20mins antes da consulta. Sentiu-se orgulho...

Quero você

    É feriado, me recuso a fazer qualquer um dos trabalhos da faculdade, não aguento mais. Quero você. Ficar do seu lado, poder ouvir sua voz, conversar. Em um dia frio, nada mais perfeito do que eu e você juntos e um bom chocolate quente. Que me importa o esforço dobrado amanhã? Durmo mais tarde, acordo mais cedo, mas hoje quero estar com você. Isabela C. Santos