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Mostrando postagens com o rótulo São histórias!

Nós andamos por aí

Andamos pelas calçadas, atravessamos as ruas, reparamos nos carros e nos cachorros pelo caminho. Vimos os passarinhos, trocamos carinhos e repetimos palavras sorrindo. E andando, acenamos! Acenamos para as casas, plantas, pessoas e bichinhos.  Nós andamos por aí e atravessamos o tempo aproveitando o nosso momento feito presente divino. Isabela C. Santos  

"Chá"?

- Chá, chá! - dizia ele. - O que é "chá", meu amor? Mostra para a mamãe! - ela deu sua mão a ele, para que a guiasse como tantas outras vezes, mas chegando à cozinha e olhando ao redor, falhou. - Chá, chá! - continuava dizendo o pequeno, agora ao seu pai que, intrigado, observava o menino arrastar a cadeira para a cozinha. - "Chá"? - perguntou o pai, mais uma vez, enquanto o menino subia na cadeira para alcançar a bancada. - Chá! Chá! - exclamava o menino, enquanto retirava algumas bolachas de um pacote e colocava-as em um pequeno pote. Nem sempre as pessoas entendem tudo o que queremos dizer, embora muitas vezes as coisas nos pareçam tão claras. Isabela C. Santos

Reflexo no espelho

Levantei-me, arrumei o pijama no corpo, olhei-me no espelho. O reflexo parecia o mesmo: os olhos, a pele, os cabelos... Mas havia algo ali que não existia antes.  Estranhamente olhei para mim mesma como se fosse outra pessoa. Talvez até fosse. O que o meu eu do passado diria sobre mim agora? As mudanças foram tantas; foram muitas, realmente. Mas eu sabia que de algum jeito, apesar de tudo, eu ainda era aquela mesma pessoa de anos atrás. O que havia mudado era o modo de me colocar diante da vida, das pessoas, de tudo o que acontecia ao meu redor. O que havia mudado era a capacidade de dizer "não" ou responder com bom humor e em uma sacada rápida quando diziam algo para me atingir. Talvez toda a diferença que eu percebia era a coragem para ser quem sou e todo aquele afastamento do meu eu do passado fosse, na verdade, um encontro comigo mesma (que ironia). O afastamento era em aparências: em essência eu sabia que ainda era a mesma.  Mais um dia havia começado e a gratid...

E viveu a vida

Mais uma vez percebeu estar pensando demais na vida, demais no futuro. De que adianta traçar planos e pensar mais do que agir? Seu defeito era também sua qualidade: pensava demais, mas pensava muito bem. O problema não eram os planos, mas aquele ponta pé inicial para se fazer o que precisava fazer. Fez da terça-feira uma segunda, dia de começos e recomeços. Deixou de pensar demais na vida para viver a vida. Isabela C. Santos

Quando o simples não é mais tão simples

- Você pode ir embora, eu vou sozinha de ônibus. Esses daqui têm o piso baixinho, não têm degrau. Essa é apenas a primeira parte, sempre que concordo em voltarmos de ônibus ela diz até passar o ponto daquela velha rua que "se a gente quiser dá pra descer logo ali e andar uns dois quarteirões só para comprar umas coisinhas, não anda muito, é rapidinho". Não é rapidinho, anda muito, as pernas não aguentam tanto, a volta para a casa é longa e ela dificilmente descansa quando chega porque "tem que fazer o serviço de casa". Descansar, de onde ela vem, é entregar os pontos, dizer que está muito ruim. A beleza da rotina chega a doer quando ela se torna apenas uma lembrança distante, quando aquilo que era tão simples já não pode ser feito com a mesma facilidade, quando nos damos conta de que a vida muda. Sempre me pergunto o quão difícil é ter alguém o tempo todo ao nosso lado e ao mesmo tempo não ter; desejar a independência, mas também o cuidado; negociar com aqu...

Chuva no telhado

Não fora o melhor final de semana de sua vida e tampouco o pior. Não conseguiu fazer tudo o que havia listado em sua agenda, mas fez o primordial. No final, não fora um dia muito diferente dos outros. Cristiane preparou um chá antes de ir para seu quarto: camomila era o chá do qual ela mais gostava. Tomou o chá para aquecer-se, deitou-se e, sem se dar conta, foi embalada pelo som da chuva. As gotas que caíam no telhado traziam lembranças dos dias de menina na casa dos bisavós. A chuva continuou caindo e, pouco a pouco, Cristiane encontrou o conforto e o aconchego que apenas alguns momentos são capazes de trazer. Isabela C. Santos 

Maria

Maria era só mais uma moça como todas as outras, mas o que Maria não sabia é que todas as outras moças não eram iguais, o que fazia com Maria também não fosse. Se Maria tinha alguma certeza quanto a sua própria vida era o fato de que era extremamente comum (a começar pelo nome). Do trabalho pra casa, da casa para o trabalho, de volta a casa, logo indo para o trabalho, fim de semana ver os amigos, segunda voltar a tudo isso. Mas se há algo que Maria não se dava conta a todo momento é que os detalhes a fazia única e se existe alguém que pode tornar uma vida única é o dono da própria vida. Maria sempre se espreguiçava antes de acordar e quase nunca tomava algo mais do que um leite com café pela manhã, conversava com o gato antes de sair e sempre que entrava em seu carro dizia a si mesma que precisava limpá-lo. Se quiser saber, quando estava na posição de pedestre Maria corria para atravessar a rua (mesmo que o farol estivesse fechado). Dava bom dia aos conhecidos, sorria pa...

Livros na estante

Sabe uma daquelas conversas longas com vendedores simpáticos pelo telefone? Aqueles vendedores que conseguem esgotar todos os recursos firmes e educados para dispensar os serviços que eles estão oferecendo até que a sua única resposta seja simplesmente "não" e você se segure para não complementar com "porque não"? Foi um desses vendedores que de tanto me perguntar o porquê e estrategicamente me tratar de modo aproximado fez com que eu pensasse (mais uma vez) sobre a vida e o quanto vivo num misto de ansiedade, esperança e há quem diga, calma.  Já havia dito que não tinha tempo para ler porque as coisas que eu tinha que ler me tomavam muito tempo, também falei que tempo me faltava nos finais de semana e que o serviço oferecido e todos os benefícios não me serviriam de nada porque eu simplesmente não conseguiria usufruir (não mencionei o fato de que R$ 2,90 é o preço do pão de queijo na lanchonete da faculdade e que gosto muito dele). Estava me justificando para ...

Um cheiro, um momento

Fui até a cozinha colocar na pia o prato no qual estavam as torradas com margarina e a caneca com cappuccino, olhei a janela e vi o que pareciam gotas d'água. Em um segundo abri a janela e o vento fresco tocou meu rosto trazendo o cheirinho de garoa. Comecei a gritar para a minha avó: "Vó, tá garoando! Sente esse cheiro, amo esse cheiro! Vou abrir mais a janela!" Quando dei por mim estava observando o asfalto molhado, as gotas que caíam próximas a luz do poste e quase chorando. Fiquei surpresa porque quase chorei, não sei se por um medo inconsciente de que isso nunca mais acontecesse, de saudade ou por um sentimento nostálgico porque de algum modo aquele cheiro me trazia a sensação de um momento feliz, talvez fosse tudo isso junto. Pode até parecer exagero (e talvez seja esta a razão pela qual me surpreendi), mas há momentos que superam a razão. Falamos tanto que devemos reparar as coisas boas da vida, mas às vezes nem nos damos conta de como essas coisas podem nos to...

Do meu bloco de notas para vocês

Antes de mais nada devo dizer que achei este texto no meu bloco de notas de um celular antigo e não me reconheci. Quando o escrevi já escrevi como se fosse um outro alguém, e tempos depois o distanciamento foi ainda maior. Do meu bloco de notas para vocês. As paixões pedem tempo. Tempo para serem vividas, tempo para serem superadas.  Quando me senti pronta para amar outra vez, senti o amor dentro de mim. Era algo bom, que sabia que queria ser direcionado a outra pessoa.  Quando me senti pronta para amar, temi. Temi enganar-me buscando sentir tudo aquilo que já havia sentido e muito mais. Temi projetar em outra pessoa tudo de bom que estava querendo sair de mim. Ora, era isso mesmo que deveria acontecer, mas se acontecesse com a pessoa errada outra vez, traria sérias consequências.  Quando me senti pronta parar amar percebi que não havia uma escolha racional a ser feita: quem iria se submeter a tantos riscos por meio de pura racionalidade? Compreendi que precisa...

Pequeno momento

Sentiu o vento no rosto quando abriu a janela, o ar fresco da chuva que se aproximava. Sorriu seu sorriso discreto e tranquilo, pelos bons momentos. Sentiu a felicidade daquelas pequenas coisas, a felicidade de viver o que vivia e a felicidade por estar feliz. Pensou que, afinal, ser feliz e saber disso a fazia ainda mais feliz. Isabela C. Santos P.S.: o desenho é meu e pensei que, mais uma vez, seria bom mostrar o que havia inspirado minhas palavras, assim como fiz nesse outro texto , por mais que ele seja tão estranho quanto o outro desenho (a verdade é que depois de dedicar meu tempo a eles acabo gostando de suas estranhezas, o que me lembra uma das mais citadas passagens de O Pequeno Príncipe).

Nem sempre

Quando tentou pela primeira vez e olhou o resultado logo pensou que poderia arrumar aquele simples detalhe e tudo ficaria maravilhoso, seria uma verdadeira superação, desde que aquele detalhe fosse corrigido. Tentou pela segunda vez e se deu conta de um erro gravíssimo que faria com que todo o planejado não acontecesse. Azar! Teria de recomeçar, pois com certeza tudo ficaria melhor quando arrumasse o detalhe da primeira tentativa e garantisse os outros. Aliás, ela se quer havia pensado que todo o resto pudesse ser perdido. Terceira tentativa, tudo deveria sair perfeito! Mas, ah... Que desastre ela encontrava a frente de seus olhos! Tudo estava pior do que a primeira tentativa e aparentemente bem pior do que a segunda poderia ter resultado! Uma verdadeira catástrofe. Bem, nem tanto. Aquele detalhe que ela tanto se esforçou para corrigir havia sido corrigido, mas não estava tudo perfeito. Todo o resto de que ela gostara tanto havia se perdido. Reparou finalmente que o que...

Não sei o nome dela

Talvez o nome dela fosse Maria, Cícera, Joaquina, ou qualquer outro.  Fabiana estava sentada em um dos assentos preferenciais quando dona Maria/Cícera /Joaquina entrou no ônibus. Fabiana levantou e ofereceu o lugar à senhora, que gentilmente perguntou à moça se ela gostaria que segurasse sua bolsa. Fabiana agradeceu e entregou a bolsa.  A senhora que não sabemos o nome iniciou uma conversa com Fabiana, que não estava lá em um bom dia, se é que você entende. Ela havia se atrasado por não ter enxergado o que estava escrito no letreiro do ônibus anterior, uma pena!  Há horas em que urgências batem à nossa porta, a dela era marcar uma consulta no oftalmologista.   - Não é verdade? - A senhora olhava para Fabiana que aos poucos havia se distraído tentando enxergar o que havia do lado de fora da janela.  - Desculpe... O que a senhora estava dizendo?   - Estava dizendo que as coisas mudam, moça!   - As coisas mudam...

Seu nome era Mila

Antes que você continue lendo gostaria que soubesse que Mila não era , ela é . No entanto, gosto do tom de "seu nome era Mila". Você entende o que quero dizer com "tom"? Talvez seja algo como o clima do texto , o ar que envolve a história , gosto disso e espero que você não se incomode, pois é puro capricho e estilo, mas antes que eu perca o foco...  Mila era uma daquelas pessoas que você olha e se pergunta: "como ela consegue fazer tudo o que faz?" e logo em seguida, por não encontrar resposta, deixa a pergunta de lado. Pois bem, esta era Mila: sempre ocupada, sempre com muitas coisas a fazer e, consequentemente, sempre cansada (ao menos aparentemente).  Pensando bem, conheço muitas Mila's. Estão por aí... no transporte público de cidades bastante movimentadas principalmente: olhos cansados, sempre correndo, o rosto sério e preocupado, uma mochila grande e pesada (provavelmente com livros, garrafa d'água, blusa e guarda-chuva). Coisas a...

Dorme que passa

    Doía-lhe a cabeça, latejavam-lhe os olhos. Por mais que o dia não tivesse sido longo, por mais que não tivesse enfrentado o trânsito, por mais que não tivesse posto os pés na rua e tivesse permanecido em casa, estava com dor. Disseram-lhe que era de tanto pensar. Será?      Seguiu o que sua mãe sempre dizia: "dorme que a dor de cabeça passa". Na verdade tentou seguir, mas ficou pensando e o sono fugiu para um lugar distante. Se o motivo da dor de cabeça não era de tanto pensar, esse ficou sendo o motivo de sua permanência. Isabela C. Santos

E então?

    Juliana olhava ao redor, tentava encontrar as palavras certas. Será que elas existiam? Longas noites acordada pensando no que dizer, longos discursos ensaiados mentalmente com frases esclarecedoras e todas aquelas coisas que ela julgava ser de grande importância. Pobre Juliana! Suas mãos estavam frias, as pernas tremiam, o estômago estava estranho e os pensamentos brincando de dar piruetas em sua mente.     Ele a olhou e os poucos pensamentos que ela havia conseguido juntar conseguiram escapar feito balões de gás em mão de criança agitada, ela já não sabia de mais nada. Abriu a boca para falar, mas não conseguiu, calou-se. Ele a olhou como se dissesse "e então? Não vai dizer?" e Juliana sentiu um frio na barriga. Respirou. Por que ela foi mexer nisso mesmo?      Endireitou-se, segurou as mãos daquele que talvez já não aguentasse mais o seu silêncio, por fim falou:     - Sabe o que é? Você é lembrança boa, a música que sempre ...

Na velha porta

    Era nosso dia, era quase nossa hora, era quase nosso lugar. Caminhei, observei as flores, as pessoas, algumas eu não conhecia, olhavam para os lados quando eu sorria (talvez estivessem pensando se aquele sorriso era mesmo para elas). Cheguei um pouco mais cedo, como era de costume, nos encontraríamos ali em frente a velha porta em um dos lugares mais lindos do parque (o que havia atrás da porta? Por favor, não me faça perguntas difíceis, era uma daquelas portas misteriosas que ninguém sabe o que esconde, como algumas pessoas tão fechadas quanto estas portas charmosas). Esperei cinco minutos. Finalmente não era apenas nosso dia, nosso lugar, mas também a nossa hora. Um, dois, três, quatro, mais cinco minutos e depois mais cinco, mais cinco, mais cinco e mais cinco. Cheguei mais perto e na velha porta havia um bilhete que dizia: Fui logo ali, volto já. Volto outro dia: no nosso dia, na nossa hora, no nosso lugar.  Isabela C. Santos

Um café, uma conversa

    O que vou compartilhar agora é um daqueles momentos especiais que ficam para sempre em nossas memórias por encontrar espaço em nossos corações. Ora, você sabe do que estou falando, não sabe? Pois bem, é simples!     Eliza estava com sua avó na cozinha: uma pausa em meio a correria, um tempo para conversar, ouvir sobre histórias do passado, conhecer mais sobre aquela com quem sua relação vinha se estreitando nos últimos anos e, claro, tomar um café, afinal Eliza e sua família sempre concordaram que café é uma das coisas boas da vida (uma das lições que o avô de Eliza deixou). Veja bem, essa situação toda já seria bastante especial, pela companhia, pelo moletom que Eliza usava (representando, claro, um dia de folga de tudo o que a estressava), pelo frio do lado de fora, mas as palavras da avó de Eliza fizeram aquele momento ser único, elas conversavam sobre o amor. Falavam sobre casais, falavam sobre a nec...

Por haver coisas assim

    São em noites assim, longas, onde mesmo cansada não consigo dormir, que as lembranças me fazem uma visita, com direito a chá, álbuns antigos e vídeos de família. São lembranças assim que trazem a saudade que não pode ser saciada porque há limites que não podem ser ultrapassados. E sei que algumas coisas me trazem com maior força essas lembranças; talvez o ursinho na minha cama, o meu cabelo curto, saber que existe o mês de setembro, o café, as novelas, a jaqueta no armário, a minha alergia, o seu óculos na gaveta do meu segundo quarto... a minha segunda casa. É por haver lembranças que trazem saudade que me dou conta do quanto muitas vezes não valorizei o presente, conta de quanto tempo desperdicei.     Ah, meu bem... Todo mundo já desperdiçou tempo na vida, não foi? Todos nos enganamos um dia, nos arrependemos, deixamos de estar presente em algum encontro e, no final das contas, nada preencheria o espaço daquele momento, nada teria sido melhor do que um últim...

Observar

      Não havia mais nada a fazer, nada a dizer. Juliana decidiu observar. Olhou o céu, estava estrelado. Muitos pontinhos embaçados. Onde estavam seus óculos? Não importava enxergar bem, daquele jeito as estrelas também eram bonitas. O que restava era sentir o ar da madrugada, olhar o céu, ouvir os latidos dos cachorros e os apitos do guarda noturno que passava pela rua. Isabela C. Santos