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Reflexo no espelho

Levantei-me, arrumei o pijama no corpo, olhei-me no espelho. O reflexo parecia o mesmo: os olhos, a pele, os cabelos... Mas havia algo ali que não existia antes.  Estranhamente olhei para mim mesma como se fosse outra pessoa. Talvez até fosse. O que o meu eu do passado diria sobre mim agora? As mudanças foram tantas; foram muitas, realmente. Mas eu sabia que de algum jeito, apesar de tudo, eu ainda era aquela mesma pessoa de anos atrás. O que havia mudado era o modo de me colocar diante da vida, das pessoas, de tudo o que acontecia ao meu redor. O que havia mudado era a capacidade de dizer "não" ou responder com bom humor e em uma sacada rápida quando diziam algo para me atingir. Talvez toda a diferença que eu percebia era a coragem para ser quem sou e todo aquele afastamento do meu eu do passado fosse, na verdade, um encontro comigo mesma (que ironia). O afastamento era em aparências: em essência eu sabia que ainda era a mesma.  Mais um dia havia começado e a gratid...

Esta data

Esta data sempre me trará lembranças daquela noite e essas lembranças sempre me trarão a sensação de que foi ontem que tudo aconteceu. Datas têm o poder de nos fazer lembrar e as lembranças nos transportam no tempo. Eu sei, tudo muda, a vida segue. O modo como lidamos com o que sentimos também muda e as emoções que determinadas lembranças nos trazem também. Antes era apenas dor, a dor virou saudade, a saudade virou amor e gratidão. Tem coisa melhor do que sentir amor por alguém? Do que ser grato por ter sido tocado por uma vida? Eu sei, queremos eternizar tudo o que é bom, queremos prender, jamais deixar partir, mas isto não está em nossas mãos e apesar de não podermos segurar em nossas mãos aquilo que não queremos perder, depois de um tempo o que fica é a alegria de poder ao menos ter tido a presença de algo tão importante em nossas vidas. Isabela C. Santos  

E viveu a vida

Mais uma vez percebeu estar pensando demais na vida, demais no futuro. De que adianta traçar planos e pensar mais do que agir? Seu defeito era também sua qualidade: pensava demais, mas pensava muito bem. O problema não eram os planos, mas aquele ponta pé inicial para se fazer o que precisava fazer. Fez da terça-feira uma segunda, dia de começos e recomeços. Deixou de pensar demais na vida para viver a vida. Isabela C. Santos

Quando o simples não é mais tão simples

- Você pode ir embora, eu vou sozinha de ônibus. Esses daqui têm o piso baixinho, não têm degrau. Essa é apenas a primeira parte, sempre que concordo em voltarmos de ônibus ela diz até passar o ponto daquela velha rua que "se a gente quiser dá pra descer logo ali e andar uns dois quarteirões só para comprar umas coisinhas, não anda muito, é rapidinho". Não é rapidinho, anda muito, as pernas não aguentam tanto, a volta para a casa é longa e ela dificilmente descansa quando chega porque "tem que fazer o serviço de casa". Descansar, de onde ela vem, é entregar os pontos, dizer que está muito ruim. A beleza da rotina chega a doer quando ela se torna apenas uma lembrança distante, quando aquilo que era tão simples já não pode ser feito com a mesma facilidade, quando nos damos conta de que a vida muda. Sempre me pergunto o quão difícil é ter alguém o tempo todo ao nosso lado e ao mesmo tempo não ter; desejar a independência, mas também o cuidado; negociar com aqu...

Um momento

Praia do Engenho, Ilha Anchieta - SP     Viajei para belos lugares. Minha alma foi tomada por profunda paz e gratidão. Meus olhos foram encantados por tudo aquilo que avistaram ao redor. Tive vontade de não mais sair dali, de te trazer para o meu lado e poder dividir aquele sentimento de quando somos surpreendidos por tamanha beleza. Quis que a vida fosse somente coisas lindas como as que estava vendo e guardei aquele momento em minha memória com a vontade de revivê-lo, mesmo sabendo que não poderia,  pois nada do que vivemos se repete, seja bom ou ruim, cada experiência é única pelo que é. Isabela C. Santos

Percebi mudanças

Se esta não é sua primeira visita aqui no blog já deve ter observado que falo muito sobre mudança; pois é, isso vem me marcando. As coisas mudam, é verdade. Em parte porque nós as fazemos mudar, afinal, mudar é um ato de coragem, ou melhor, uma sequência de pequenos atos de coragem, mas há mudanças que superam nossas mãos, vão além de nós. Neste último semestre de faculdade me encontrei em meus dois últimos estágios e, como se não fosse suficiente serem os últimos, escolhi duas escolas importantes para mim e de grande significado para a minha formação pessoal: as escolas em que estudei anteriormente. Voltei, em outra posição, as coisas mudaram. Anos atrás estava longe da sala dos professores, conversando com os colegas na hora do intervalo, sorrindo levemente para as professoras de longe. Agora as crianças me abraçavam e me perguntavam quando voltaria na sala delas, eu recebia abraços e tomava chá com os professores. Estava em uma posição intermediária: nem aluna como...

Chuva no telhado

Não fora o melhor final de semana de sua vida e tampouco o pior. Não conseguiu fazer tudo o que havia listado em sua agenda, mas fez o primordial. No final, não fora um dia muito diferente dos outros. Cristiane preparou um chá antes de ir para seu quarto: camomila era o chá do qual ela mais gostava. Tomou o chá para aquecer-se, deitou-se e, sem se dar conta, foi embalada pelo som da chuva. As gotas que caíam no telhado traziam lembranças dos dias de menina na casa dos bisavós. A chuva continuou caindo e, pouco a pouco, Cristiane encontrou o conforto e o aconchego que apenas alguns momentos são capazes de trazer. Isabela C. Santos