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Que tal fazer nada?

    De onde veio está ideia tão presente de que temos que fazer algo útil a todo o tempo? De que toda brincadeira tem que ser educativa (acredite, não é porque um adulto não preparou a brincadeira que  a faz deixar de ser importante), que o bom mesmo é estar aprendendo a todo o tempo? Onde foi parar o tempo de simplesmente fazermos nada? Aquele tempo em que observamos as coisas bobas como a sombra na parede ou o modo como as coisas estão organizadas (ou não)? Precisamos de tempo para nós mesmos, para fazer aquelas pequenas coisas que não terão utilidade para as outras pessoas e não mudará a vida de ninguém; talvez as nossas. Que mal faz relaxar, esquecer tudo o que nos cansa e nos estressa normalmente? Que mal pode nos fazer tentar viver levemente? Sim, não tenha dúvidas, estou defendendo que façamos nada de vez em quando. Fazer nada sozinhos ou com alguém. Observar a estante por observar não é nenhuma loucura.

Pare!

     Vamos, vamos lá. Vamos pensar um pouco sobre esse tempo todo que gastamos de um lugar ao outro. Some a hora que você gasta para ir à faculdade e as duas horas necessárias para voltar para o conforto do seu lar. Sim, três horas no ponto de ônibus, no ônibus, no terminal e no ônibus outra vez. Três horas para observar as pessoas, ler textos, ouvir música, conversar com estranhos (ah, isso é muito curioso!), olhar pela janela, pensar no que vai fazer no final de semana, pensar no que vai fazer na próxima semana, pensar no que vai fazer no próximo mês, planejar suas horas de estudos independentes.      Não sei qual dessas coisas  que eu gosto de fazer mais, talvez observar as pessoas. Já reparou naquelas pessoas que sempre estão no mesmo ônibus que você? Na diferença de disposição e humor do horário em que você está indo para o horário que você está voltando? Sempre que volto vejo alguém mal-humorado, tenho certeza de que as filas imensas no termi...
    É engraçado como a rotina nos faz deixar de observar. Me lembro da primeira vez que fui para a faculdade (quando fui fazer a matrícula, acompanhada pelo meu pai): um caminho muito interessante, com casas bonitas, trechos com muitas árvores, boa parte do caminho em uma mesma avenida cheia de empresas de todos os ramos. Tudo isso era demais. O caminho era lindo. Bom, ainda gosto da rota, mas às vezes acabo percorrendo o caminho de forma automática, sem prestar atenção, até que olho para o lado e penso "Ei, essa casa já estava aí? Que jardim lindo! Será que consigo fazer algo parecido com isso no quintal lá de casa?" e percebo que estou perdendo minutos do meu dia entrando em "modo automático" durante o percurso da minha casa até a faculdade e da faculdade até minha casa. Perdendo a oportunidade de apreciar muitas coisas.

O guardanapo

    Dia de sol, calor em São Paulo, início do primeiro semestre de 2012, 13h: estou esperando o ônibus sair do terminal. Após passar pela catraca e me acomodar, retiro da bolsa o texto da aula do dia seguinte. Percebo alguém entrando no ônibus: uma moça de cabelos cacheados segurando um pacote do McDonald's. A moça passa pela catraca, senta no banco da fileira ao lado da minha. Coloca o pacote no colo, tira a caixa do lanche do pacote, abre a caixinha e coloca o guardanapo que tirou do pacotinho sobre o lanche. Fecha a caixa. Vira a caixa para baixo e a abre outra vez, embrulhando o lanche com o guardanapo logo em seguida.           Aprendi a colocar o guardanapo no meu lanche de um modo prático, voltei a ler o texto e o ônibus partiu. Desci no meu destino, a moça continuou no ônibus e o meu modo de colocar o guardanapo no lanche mudou para sempre.

Fim de tarde

     E então é fim de tarde. A luz do sol nas folhas das árvores, o barulho do motor do ônibus, as curvas, as paradas, as breves conversas, os livros lidos no caminho de volta para a casa, os detalhes das casas do trajeto feito todos os dias. Os carros enfileirados nas ruas, a pessoa que dorme no assento ao lado, as placas com os curiosos nomes. O sol iluminando detalhes, realçando a beleza dos olhos, dos fios de cabelo, da pele. Todos juntos isolados no seu próprio mundo, no mesmo caminho, mas com destinos diferentes. Observar...  Isabela C. Santos

Desembaça, por favor

Não, eu não sei sempre o que estou pensando. Quer dizer, sabe aqueles pensamentos desorganizados que tem algo a ver, mas você não os vê com clareza? Pois é, estou cheia deles esperando algo que desembace minha visão. Talvez um óculos, ou um pouco de tempo e paciência. E pensar que só estou falando da minha agenda e poderia ser algo mais sério... talvez esteja enlouquecendo, falando assim de qualquer coisa. Talvez não.
E então as coisas acontecem, simples assim. Naturalmente. Sem pensar no que deveria ser feito, simplesmente o fazemos sem perceber e depois nos damos conta. É surpreendente como as coisas teimam em acontecer quando você já não esperava mais.