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Vergonha

Posso dizer que, ao menos para mim, a vergonha se encontra no grupo dos sentimentos mais difíceis de lidar. A vergonha move parte das nossas ações: quantas coisas fazemos e deixamos de fazer para honrar àqueles que amamos? Quanto da honra significa não envergonhar? A vergonha nos faz voltar atrás, mas também nos faz seguir em frente. Voltamos atrás para pedir perdão, seguimos buscando chegar o mais próximo possível daquilo que gostaríamos de ser.

É possível olhar para trás e não sentir arrependimento pelas minhas escolhas, pela pessoa que fui, apenas pelo fato de isso ter me trazido até aqui, mas seria mentir dizer que não sinto vergonha de algumas lembranças. Vergonha de algumas brincadeiras quando criança, vergonha pela minha falta de posicionamento, vergonha por coisas que eu disse e por coisas que permiti que dissessem sem responder. A vergonha faz querer esquecer, é constrangedor apontar erros quando o alvo somos nós mesmos: a indignação começa em nós e a culpa também termina em nós. Mas essa vergonha, é ruim?

Acredito que esse constrangimento que a vergonha traz ao pensar nas minhas atitudes e pensamentos do passado seja um indicativo de algo bom, afinal, a vergonha não existiria se eu não enxergasse um erro. Se eu não percebesse o quão ruim é deixar de dizer coisas que realmente importam para mim, ver algo errado e ficar calada, deixar passar uma oportunidade e dar espaço para o mal entendido, talvez, a minha vergonha futura fosse maior ainda. 

A vergonha das atitudes passadas vem do reconhecimento do nosso erro, constrange, inquieta, perturba, faz-nos repensar o que já foi analisado, e pode ser um bom sinal: se hoje nos envergonhamos de algo que um dia fizemos, se hoje nos vigiamos para agir diferente, é porque já não somos os mesmos (apenas depois de tomarmos boa distância daquilo que éramos é possível sentir vergonha, é preciso tempo e diferença). Esse exercício angustiante e constrangedor de avaliar-se o tempo todo e encontrar coisas que acabam por nos dar vergonha traz motivos de gratidão, afinal, não ganharíamos nada deixando passar anos  e anos sem buscarmos as melhores versões de nós mesmos.

Termino esse texto com a seguinte mensagem, para mim, para você: permita-se envergonhar-se, não deixe de pensar tentando negar algo que você já desconfia, mas pare para esclarecer para você mesmo aquilo que te faz sentir vergonha, aquilo que revela para você quem você não quer ser agora e consequentemente quem você gostaria de ser. Conheça você mesmo para que essa vergonha não te faça parar, mas seguir em frente.


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